Lua (ou Sol)

5 Novembro, 2009

Comprei há algum tempo um mp3 player. Como sou econômico humilde, resolvi pegar um bem simples, sem frescuras. Quando eu comecei a usa-lo, percebi que as frescuras que eu abri mão foram: volume razoável, bateria durável e painel alumiado. Ou seja, um aparelho abominável, com volume baixo, pouca bateria e uma dificuldade para escolher as músicas.

Enfim, não o uso mais. Na volta de São Paulo, quando fui ver a Virada Russa, passei numa loja na rodoviária para arrumar algo para ler. Achei um livro que me pareceu de distribuição independente, quase amador, com contos, “mini-contos” e poesias. Li de forma aleatória, entre uma olhada e outra pela janela.

Há uma certa altura da viagem (km 64), deparei-me com um “mini-conto” que eu achei bem interessante. Às vezes ele me parece um rascunho. De qualquer forma, compartilho com vocês.

Lua (ou Sol)
por Luis Tavares Santos

Mesmo com todas as mudanças climáticas ocorridas nos últimos tempos; mesmo os gases emitidos pelas fábricas, refinarias, carros, construções; mesmo com os fenômenos da natureza; as angulações da luz e seu prisma; mesmo com todas as explicações e teorias, ele nunca vira uma lua daquelas.

Não era uma lua qualquer. Não parecia uma lua qualquer. Talvez nem fosse lua, talvez fosse sol. Ele a vira numa madrugada, antes da chegada dos pássaros, longe da chegada do dia, da chegada do final, ou do começo. Já fizera sua escolha, sua decisão. Era uma questão de esperar o dia acabar. Eis que ele é presenteado com uma lua que ele nunca vira.

Era grande, imponente, como se autorizasse sua escolha. Símbolo de consentimento. Ele a vira a caminho da despedida, nas ruas que passaria pela última vez, na portaria que não escalou, nas curvas que mal fazia. Eles se encontravam entre uma olhada e outra, entre uma enxurrada e outra, enxugada e outra, exumada e outra.

Chegou em casa sem forças para sobreviver. Adormeceu como num último sono.

***

Acordou pouco tempo depois, mas como se fizesse anos que dormira. O cansaço dos pés não estavam sanados, mas a mente estava revitalizada. Olhou-se no espelho. Não se reconheceu. Estava tudo lá: a barba, a boca, os olhos, mas havia uma leveza no olhar, uma serenidade na expressão. Fazia tempo que não deixava de sentir um fardo. Suas cobranças consigo eram as mesmas do dia anterior, mas uma pendência resolvera. Com ajuda da lua. Uma lua que ele nunca vira.


VIRADÓVSKI RUSSÓV NO BRASIVITCH (Virada Russa no Brasil)

31 Outubro, 2009

Mais que as aulas da disciplina “História da Arte”, que eu tive na faculdade e tenho quase certeza que elas NÃO ocorreram, lembro-me de um fato que ilustra bem o engajamento artístico da docente, que além de professora era diretora do curso de Artes Plásticas da universidade.

Na apresentação do trabalho final da matéria, eis que testemunho o seguinte diálogo.

- Vocês são os próximos a apresentarem o trabalho? – indagou a experiente preceptora a um grupo pequeno.
- Sim, ‘fêssora – responderam em uníssono os discentes.
- Olá, meu nome é Roberta. – (O nome talvez seja fictício. Não o lembro exatamente. Guardo apenas  suas ausências freqüentes).

Dito isso, coloco-me na posição de leigo em Artes. Não (apenas) pelo fato em questão, mas por uma certa falta de entusiasmo. Assim como só fui apreciar música erudita depois do quarto de século de vivência.

Fui a São Paulo visitar a Virada Russa, que o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) trouxe ao país. A exposição foi disposta em quatro andares do belo prédio, localizado no centro antigo da capital.

A exposição é toda dividida em sub-temas, como no sub-solo, com uma abordagem sobre o engajamento dos artistas durante a Revolução Russa, quando eles se preocuparam menos com as novas tendências artísticas, para focarem suas obras em cartazes e louças com mensagens em prol do Comunismo. Os cartazes são verdadeiras obras de arte. O amálgama criado entre a arte, informação, engajamento e didatismo é envolvente. Às vezes é possível ver uma animação 3D nos cartazes manuais. Em outras, uma propaganda televisiva, com cenas, diálogos e um roteiro primoroso.

Nos outros andares, são apresentadas justamente as inovações da vanguarda russa, como é o caso das obras de Kazimir Maliévitch.

Um artista que segundo os curadores da exposição, Ania Rodríguez Alonso e Rodolfo de Athayde, não é tão conhecido e valorizado no Ocidente, foi quem mais me impressionou. Pável Filónov conseguia fazer uma fusão de diversas linguagens, novas e canônicas, para montar um quadro cheio de mensagens e significados.

Há também a obra Promenade, de Marc Chagall, outro ponto alto da exposição (Não por ficar no último andar, mas por ser um momento lírico dentro do surrealismo).

A exposição no CCBB de São Paulo vai até o dia 15 de novembro. A entrada é gratuita!


Niemeyer

24 Outubro, 2009

Mais aqui.


1001 DISCOS (para download)

23 Outubro, 2009

Achei um link para download (em rapidshare ou easyshare) de TODOS os álbuns citados no livro “1001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER“, de Robert Dimery.

Trata-se de um livro bem bacana, dividindo os discos mais importantes de cada década. É um ótimo guia para referência.

http://nobrasil.org/1001-discos-para-ouvir-antes-de-morrer/


Imagens motivacionais

21 Outubro, 2009

Mais no Chongas


Novidades do bom velhinho!

20 Outubro, 2009

Quando todos o reverenciavam pelo seu estilo folk, ele passou a tocar guitarra. Quando todos queriam vê-lo se apresentando, ele sumiu para viver numa fazenda. Quando todos queriam um album novo, ele aparece com um album tradicionalmente country.

Depois, torna-se evangélico; Volta ao judaísmo; Atua em filmes nos anos 80. Na década seguinte, após lançar um album considerado um dos melhores da sua carreira, ele faz um CD completamente diferente…

Talvez seja assim que podemos interpretar a receptividade de Bob Dylan à receptividade do público.

A última do músico é o lançamento de um album “Christmas in the heart”. Um CD – respirem fundo – NATALINO! Sim, podemos ouvir Bob Dylan soltando a voz – seja ela qual for – em canções tradicionais do Natal americano.

O clima solidário de fim-de-ano também mexe com Dylan. Toda a renda de direitos autorais do álbum será doada para instituições que ajudam as pessoas de baixa-renda. Nos EUA, a Feeding America receberá a quantia. Para os fãs ingleses, Crisis será a presenteada. No restante do mundo, o repasse será feito para WFP.

Como no Brasil o CD não foi lançado, deixo o link do torrent para vocês ouvirem.
http://thepiratebay.org/torrent/5128158/Bob_Dylan_-_Christmas_in_the_Heart__mp3__192

Caso queiram comprar, a Livraria Cultura comercializa a versão importada.


Madeleine Peyroux

18 Outubro, 2009

Há quem compare sua voz com a de Billie Holiday. Mas isso não vem ao caso. Talvez esse fosse o marketing gerado para divulgar o primeiro álbum, mas agora Madeleine Peyroux não precisa mais dessa comparação. É secundário no perfil da americana criada em Paris na adolescência, quando dormia durante o dia e ficava a noite toda acordada, trabalhando como artista de rua.

Gravou seu primeiro álbum 1996. Entitulado Dreamland, o CD tem um perfil muitas vezes mais folk e country-folk do quê jazz, como viria a ser rotulada.

Durantes seus três primeiros CDs, pouco foi sua atuação como compositora. Sua fama se pautou sempre na forma como interpretava as canções. Seu repertório era vasto e amplo, passando por compositores-poetas, como Bob Dylan e Leonard Cohen, flertando com compositores dos anos 90, como Elliott Smith e homenageando standards da cultura americana, como é o caso de “Smile” (Charlie Chaplin) e “Don’t Cry Baby” (Bessie Smith).

Foi no quarto e último álbum de estúdio, Bare Bones, que ela aceitou e se assumiu como compositora. Muito influenciada pela morte do pai, cuja relação nunca foi tão boa, ela compôs a maior parte das canções. A maioria na companhia de Larry Klein, que também assina a produção.

Para este ano, Madeleine Peyroux nos presenteia com o primeiro registro de um show – “Somethin’ Grand”. Avessa a muita popularidade, Madi – como é conhecida – se entrega ao DVD e nos apresenta um trabalho redondo e maduro. Além do show, gravado em Los Angeles, ainda podemos ver versões intimistas, despretensiosas e acusticas, além de um documentário, retratando a carreira de Madi.

Assistindo ao documentário, é possível perceber porque ela se diferencia de muitas intérpretes. Ao escolher a arte na rua, sra. Peyroux ganha uma experiência que, aí sim, é passível de comparação com muitas cantoras de jazz dos anos 20 e 30. Como todo intérprete que vai além de uma boa voz, Madeleine sabe contar histórias.

É preciso também dar créditos ao seu talento como musicista. Madi domina com graciosidade e feminilidade o violão, tocando num estilo que dialoga com o folk blues e o jazz do começo do século.

No documentário, o responsável por fazer Madeleine assinar o contrato diz uma coisa bem interessante: O público exige menos rótulos do que o mercado fonográfico. Então, não saia querendo ouvir jazz, pop, folk ou o quê for. Ouça Madeleine pela qualidade incontestável.


Tangled Up In Bob

14 Outubro, 2009

Vocês podem achar que é obsessão, mas prometo que este site é muito mais funcional do quê parece. Imagino que todos que gostam de música garimpam de vez em quando. É comum pesquisarmos com entusiasmo curiosidades diversas: bandas novas, gravações raras, versões ao vivo, mudanças de letras, etc…

Durante meus passeios frequentes eventuais pela dylanosfera virtual, deparo-me com um site que é sensacional. Simplesmente uma web-radio que SÓ toca coisas relacionadas ao Bob Dylan.

Lá é possível ouvir todo o material que seria preciso muito tempo (e muitos gigabytes) para conseguir atingir esse acervo. Costumo escutar musicas que nunca ouvira, ou versões ao vivo dos shows mais recentes, além do material oficial.

Outro benefício é ter acesso ao programa de rádio apresentado por Dylan – Theme Time Radio Hour. É um programa temático onde o Bob mostra várias músicas ligadas ao tema. Os tópicos são dos mais diversos: família, números, felicidade, juventude… E entre uma música e outra, Dylan faz algumas observações e curiosidades sobre o tema ou a canção.

Sei que nem todos vão aguentar ouvir… Conheço mais gente que odeia do que os que apreciam.

Enfim, fica a dica!

Obs.: Já fiz outras sugestões de links dylanescos…


Ficções – Borges

21 Junho, 2009

Ele não está te enganando. Desde o começo já diz qual é o fundamento do livro todo. Boa parte dos livros, páginas, volumes, enciclopédia, escritores, militares, labirintos não existem.

Mas bem que poderiam. Essa é a conclusão que você tira quando acaba de ler cada conto de Ficções, do argentino Jorge Luis Borges.

Ele cria situações e conta de uma forma que te prende e te faz parar para pensar até o final do dia. Poucos foram os dias que eu quis ler mais de dois contos de uma só vez. O melhor é ler um, que em média não passam de 15 páginas, e saboreá-lo aos poucos, dando risadas e se pegando olhando para o nada, enquanto lembra, relembra e se questiona como tudo aquilo foi pensado.

Para quem não gosta de estórias curtas, preferindo romances longos, densos, reflexivos e dinâmicos, saibam que não perderão nada. Não subestime um conto, não o de Borges. Ele mesmo explica a escolha no prólogo do livro:

“Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário.”

Mesmo desse jeito, contando a história de forma “direta”, Borges consegue uma harmonia entre a exatidão, rapidez e sutileza. Considere um romance compactado. Ou uma poesia em prosa.Veja o primeiro parágrafo do conto “Exame da obra de Herbert Quain”:

“Herbert Quain morreu em Roscommon; comprovei sem espanto que o “Suplemento Literário” do Times apenas lhe concedeu meia coluna de piedade necrológica, na qual não há epíteto laudatório que não esteja corrigido (ou seriamente admoestado) por um advérbio.”

Outros contos situam-se entre meus favoritos: “Funes, o memorioso”, “Jardim de caminhos que se bifurcam” e “As ruínas circulares” estão entre eles. Mas todo o livro vale a pena.

Borges é necessário, é só o que posso dizer.


Sociologia do vinil (ou antropologia do bolachão)

9 Janeiro, 2009

Não entrarei nos méritos tecnológicos. Harmônicos pares, harmônicos ímpares, freqüências, qualidade sonora, high-fidelity e afins. Só digo algo sobre essas comparações, que é fato constatado por mim mesmo: já ouvi determinados álbuns em várias tecnologias – mp3, vinil, CD – e cada um tem sua característica.

Adendo para polêmica: nos álbuns ouvidos em vinil, ouço sons que não ouvi nas outras configurações. Como se fossem versões frescas e vivas. Fato.

Voltando à temática principal: O som do vinil vai além dos aspectos técnicos e sutis na absorção da música. A influência do bolachão perpassa outros campos. Há uma relação, convivência e intimidade com a música que não é reproduzida em outras mídias. Seja isso limitação ou não, o fato é que há uma especificidade quando ouvimos um som no disco de PVC.

Na era da tecnologia digital, onde o iPod, mp3 e todo o glossário do século XXI se faz necessário, a música é facilmente manipulável. É possível trocar as ordens das canções, passar para frente trechos desagradáveis, pular faixas indesejáveis, montar compilações inimagináveis e até edita-las através de qualquer critério.

É o caso das playlists, altamente difundidas e que são listas de músicas feitas por qualquer um. A mesma modernidade se aplica aos mash-ups, que é a “arte” de sincronizar duas ou mais canções para formar novos arquivos, novas tendências.

Exemplos:

Outkast + Queen

Snow Patrol + The Police

Contudo, sem desmerecer a criatividade e a independência que a modernidade nos traz, a relação que temos com a música quando a ouvimos no vinil é completamente diferente.

Podemos ouvir música deitados, sentados ou em pé. Porém, é quase certo que, ao ouvir as canções de um alto-falante, não estaremos perto da fonte sonora. Trocando em miúdos: ouvimos música longe dos tocadores de música. E isso inclui o vinil.

Sendo assim, os tocadores de discos não têm a mesma flexibilidade que as mídias digitais. É preciso um movimento cirúrgico para trocar de música, quanto mais para passar o trecho indesejado. Isso sem contar o movimento físico completamente desgastante (culpa da modernidade e do conforto) que é se deslocar até o toca-disco para erguer a agulha e coloca-la no local exato (exatidão essa baseada na intuição) que a música lhe é mais agradável.

Nos conformamos, portanto, a ouvirmos as músicas nos toca-discos de forma mais íntima. Numa analogia chula, mas que ilustra bem a relação ouvinte/disco: nem sempre reconhecemos nosso grande amor ou nosso melhor amigo no momento que os cumprimentamos. Muitas vezes é preciso estabelecer uma relação, construir experiências que, num futuro, teremos uma afetividade concretizada e conscientemente produtiva.

O mesmo ocorre com a música. Nem sempre uma música lhe chama a atenção no primeiro contato. Às vezes é preciso conviver com ela até que tudo se encaixe, até que a letra, melodia e harmonia (NÃO DISSE HARMÔNICOS!!) lhe dêem prazer.

Ou seja, ouvir uma canção no vinil é conviver com a música de forma madura. Não iremos ignorá-la na primeira audição, já que o esforço (físico pela locomoção e mental pela atividade cirúrgica) que é trocar de música ou passar um trecho para frente é muito menos compensatório do que deixar a música dizer o que é que ela veio dizer. E, muitas vezes, é nessa exata hora que encontramos nossas preferências. É no momento de um quase “conformismo” sonoro, quando nos deixamos ouvir o quê a música tem a dizer que a compreendemos e tornamo-nos apreciadores dessas canções.

***

Como faixa-bônus (cultura possivelmente pós-vinil), um documentário sobre o bolachão, feito em Goiânia.

RESISTÊNCIA DO VINIL

Parte 1

Parte 2