VIRADÓVSKI RUSSÓV NO BRASIVITCH (Virada Russa no Brasil)

31 Outubro, 2009

Mais que as aulas da disciplina “História da Arte”, que eu tive na faculdade e tenho quase certeza que elas NÃO ocorreram, lembro-me de um fato que ilustra bem o engajamento artístico da docente, que além de professora era diretora do curso de Artes Plásticas da universidade.

Na apresentação do trabalho final da matéria, eis que testemunho o seguinte diálogo.

- Vocês são os próximos a apresentarem o trabalho? – indagou a experiente preceptora a um grupo pequeno.
- Sim, ‘fêssora – responderam em uníssono os discentes.
- Olá, meu nome é Roberta. – (O nome talvez seja fictício. Não o lembro exatamente. Guardo apenas  suas ausências freqüentes).

Dito isso, coloco-me na posição de leigo em Artes. Não (apenas) pelo fato em questão, mas por uma certa falta de entusiasmo. Assim como só fui apreciar música erudita depois do quarto de século de vivência.

Fui a São Paulo visitar a Virada Russa, que o CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) trouxe ao país. A exposição foi disposta em quatro andares do belo prédio, localizado no centro antigo da capital.

A exposição é toda dividida em sub-temas, como no sub-solo, com uma abordagem sobre o engajamento dos artistas durante a Revolução Russa, quando eles se preocuparam menos com as novas tendências artísticas, para focarem suas obras em cartazes e louças com mensagens em prol do Comunismo. Os cartazes são verdadeiras obras de arte. O amálgama criado entre a arte, informação, engajamento e didatismo é envolvente. Às vezes é possível ver uma animação 3D nos cartazes manuais. Em outras, uma propaganda televisiva, com cenas, diálogos e um roteiro primoroso.

Nos outros andares, são apresentadas justamente as inovações da vanguarda russa, como é o caso das obras de Kazimir Maliévitch.

Um artista que segundo os curadores da exposição, Ania Rodríguez Alonso e Rodolfo de Athayde, não é tão conhecido e valorizado no Ocidente, foi quem mais me impressionou. Pável Filónov conseguia fazer uma fusão de diversas linguagens, novas e canônicas, para montar um quadro cheio de mensagens e significados.

Há também a obra Promenade, de Marc Chagall, outro ponto alto da exposição (Não por ficar no último andar, mas por ser um momento lírico dentro do surrealismo).

A exposição no CCBB de São Paulo vai até o dia 15 de novembro. A entrada é gratuita!


Nação Zumbi com fome de tudo… até do passado!

12 Maio, 2008

O som é revigorante. A iluminação é psicodélica. A performance é transcendental. O clima é… nostálgico? A Nação Zumbi tinha tudo para se manter como uma das bandas mais originais e revitalizantes do cenário brasileiro se não fosse pela insistência deles mesmos em continuar vivendo sob a sombra de Chico Science.

Desde a morte de Chico, em fevereiro de 1997, a banda já lançou quatro álbuns de estúdio, Radio S.amb.A (2000), Nação Zumbi (2002), Futura (2005) e Fome de tudo (2007). Na companhia do líder, gravaram apenas dois álbuns de estúdio, Da lama ao caos (1994) e Afrociberdelia (1996). Escrevo isso para mostrar que a quantidade de músicas compostas pela banda após o falecimento de Chico é o dobro do que a produção quando ele estava em vida. Mesmo assim, o show de abril de 2008, na turnê do disco “Fome de Tudo”, há um número consideravelmente superior de músicas da fase Chico Science.

Fui ao show da Nação Zumbi para ouvir as músicas da Nação Zumbi, obviamente que gostaria de ouvir a música da fase que os lançou ao mundo, mas gosto da sonoridade atual e queria ouvir as músicas novas, frescas e revigorantes que eles fizeram nos últimos 8 anos. Porém, o repertório do show é focado grande parte nas músicas dos álbuns de 94 e 96, causando um clima nostálgico e quase melancólico na platéia. Todos se divertem, todos pulam nas músicas antigas, mas há sempre aquele clima de “bem que eu queria que Chico estivesse aqui…”. Eu também queria! Mas vamos aceitar o fato dele ter morrido e vamos seguir em frente. A produção fonográfica da Nação pós-chico é tão competente e brilhante quanto as músicas compostas nos anos 90. A importância dele é indiscutível, mas a Nação tem que aprender a andar com suas próprias pernas e arriscar mais, montando um repertório que reúna as músicas do começo da carreira, mas que tenha como alicerce as canções compostas na fase “só” Nação Zumbi.

O mangue-bit, liderado por Chico Science e Fred 04 (do Mundo Livre S/A), é sem dúvida o último grande movimento artístico do país. Não quero esquecer, volto a frisar, da importância fundamental de seu porta-voz, mas não quero que suas crias vivam sempre como apenas “filhos do Chico”. São sim, mas não devem agir dessa forma.


Velho batuta…

24 Dezembro, 2007

Como todos sabem… hoje é véspera de natal.

E daí?

Feliz hipocrisias a todos… Que se iludam com a simbologia estúpida que é a semana do dia 25 de dezembro à 1º de janeiro!

Consumam, façam promessas… em vão!

HAHAHAHAHA…

Esse sim é o espírito de natal… Um demônio, vermelho, que se veste de velhinho pedófilo para trazer o caos e a falsidade em nossas vidas!

Obs.: Juro que não estou descontente com a minha vida nem nada… apenas quis ser ácido uma vez na vida (?!?)!

Até a próxima!


Flashrock

24 Julho, 2007

Lembro de uma época na faculdade quando dois amigos concorriam para saber quem conseguia antecipar as tendências culturais, sejam elas de comportamento, moda, música, entre outras.

Nos idos de 2003, se eu me lembro bem, Renan, um desses amigos, comentou em nossa turma sobre um novo movimento que acontecia de modo frenético: flash mobs. A nova tendência consistia num bando de gente que combinava estar numa certa hora e lugar para fazer um tipo de coreografia pré-estabelecida, mas nem sempre sincronizada.

Um desses flashmobs aconteceu no Brasil, em 2004, quando um grupo de pessoas atravessaram a Avenida Paulista, em São Paulo, no primeiro sinal verde após o meio-dia num dos semáforos. Porém, ao invés de atravessarem normalmente, todos tiraram um dos calçados e batiam-os no chão. Depois que atravessaram, cada um seguiu seu caminho.

Isso para dizer que a banda Ultramen e outras bandas do Sul querem inserir uma nova vertente nesse movimento, o flashrock. O movimento consiste em ir a um lugar público no meio da madrugada e uma banda se apresentar com artistas plásticos pintando nos locais em volta. Tudo para homenagear o rock.

Eis a explicação oficial:

 

E aqui está um exemplo:

Tem um blog desse “movimento”. No texto acima eles dizem que tem que ser feito antes da polícia barrar a apresentação. Nos vídeos do site, nenhum mostrou a intervenção dos policiais. Será que dá certo mesmo?


Seria Mombojó mais do mesmo ou o ‘a mais’ do mesmo?

23 Maio, 2007

Uma coisa é fato: Depois de Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, pouco se criou dentro do movimento Manguebeat, nascido no Recife em meados dos anos 90. Não sei se foi por esgotamento criativo, por sucesso do movimento ou por saturação do estilo, mas a real é que todas as bandas que vieram depois não acrescentou algo de muita relevância.

Não quero dizer que não há coisas de qualidade. Jorge Cabelera, Escurinho, Eddie e Lampirônicos são apenas alguns exemplos de ótimas produções do movimento pós-Chico Science, mas de certa forma sempre se copiou o mesmo formato. Às vezes dando mais ênfase ao rock, ao maracatu ou a outros estilos, mas seguindo a mesma formula.

Mombojó, portanto, segue a mesma linha das bandas citadas. Das bandas-mestres do movimento, fica mais perto de Mundo Livre S/A (o vocalista Felipe S soa parecidíssimo com o vocalista do Mundo, Fred 04, que por sua vez remete à voz de Jorge Ben). Há um quê de Los Hermanos, com sotaques sessentistas da Jovem Guarda. Obviamente não deixam de lado os ritmos suingados dos sambas, bossa-nova e maracatu, mas também investem em elementos do jazz e em algumas batidas de drum´n´bass. Se há algo de original no som do Mombojó, além da grande diversidade de estilos convergidos é a variedade de timbres. Ouve-se de órgãos Hammond e pianos Fender Rhodes a flautas, percussões e violões, passando por sintetizadores e outros efeitos sonoros. O grupo recifense já lançou dois álbuns. nadadenovo, de 2004, distribuído pela revista do Lobão, Outracoisa; e Homem-espuma, de 2006, com distribuição da Trama.

Mesmo sem muito adicionar à sopa do manguebeat, acho que vale a pena conferir a banda ao vivo. Deixando de lado as inevitáveis comparações com Mundo Livre, dá pra curtir um ótimo som.

O Mombojó toca em Campinas semana que vem, na Kraft. Quem quiser saber mais, entrem na página da Kraft ou na do Vinil Produções.

 Obs.: No site do Mombojó dá pra baixar os dois CDs dos caras… É bom conhecer as músicas antes de ir no show, né?


O lirismo de Lirinha sobre a cama de Cordel do Fogo Encantado

22 Maio, 2007

Cordel do Fogo Encantado

Para fechar a Virada Cultural em Campinas, a organização escolheu o grupo Cordel do Fogo Encantado. Uma ótima escolha, já que é uma banda que faz shows lotados quando toca por aqui. E mesmo já se apresentado na cidade nesse semestre, o grupo de Arcoverde, Pernambuco, trouxe muita gente para a Estação Cultura.

O show já começa numa inversão de valores. Ao contrário do que muitas bandas fazem, o “líder” da banda, o vocalista Lirinha, entrou no palco antes do que o restante do grupo. Entrou devagar, se preparando como que para um ritual, para o show que viria a comandar. Chegou perto do microfone em meio à sons de celas se abrindo e fechando e começou a recitar o texto, entitulado “Tlank”, de Manoel Filó, que é a introdução do último CD da banda, Transfiguração. O poema de introdução já explica o espetáculo e o CD: Conta o sentimento de um preso, do momento em que entra na prisão (que nada difere de um velório) para o momento em que sai da punição, em liberdade. Assim é tanto o CD quanto o show. Livre.

Logo após “Tlank” o show começa com todos da banda tocando “Sobre as flores (ou O Barão nas Árvores)”. Um começo energético e uma letra que também fala de uma desvinculação. “(…)gritou no jantar: não quero nada”. A percussão alucinante e Clayton Barros no violão abusando de efeitos fazem o clima para as histórias que são contadas. Lirinha não só se mostra um ótimo letrista (ou seria poeta?) e cantor, como também um personagem a parte do espetáculo, remetendo ao começo da banda, que iniciou os trabalhos em 1997 como um grupo teatral.

O Cordel tocou boa parte das músicas do novo CD e a receptividade do público foi ótima. As pessoas pularam nas canções do último CD tanto quanto nas músicas dos outros dois álbuns (Cordel do Fogo Encantado e O palhaço do circo sem futuro, ambos 2002). Um dos pontos altos do show foi a música “Louco de Deus”, quando Lirinha “dialogou” com uma latinha contendo fogo. Olhava para o fogo, brincando com ele e dizendo para ele a letra. Quanto não cantava, jogava a lata para cima, como um louco. “(…)Eu sou um servo dos loucos de Deus/No fundo dos olhos/Na alma do corpo/No fogo/Fogo”.

Louco de Deus

A música que dá nome ao ultimo álbum também teve para mim uma lembrança a parte. Foi a primeira vez que vi “Transfiguração” sendo executada ao vivo e a energia que se sente nessa música é muito intensa. Uma das músicas mais bem produzidas do CD. A interação entre a letra, a percussão e a forma de cantar de Lirinha é perfeita. A banda está a altura da qualidade lírica de Lirinha.

Algo que sempre me chama atenção é o transe em que Lirinha se encontra quando esta no show. Como um momento único, ele curte cada segundo de sua estadia no palco. Rege a banda, como em “Morte e vida Stanley”. Rege o público como em “Pedrinha” e “Ai se sesse” (uma puta obra de Zé da Luz). Em “Chover”, Lirinha, longe do microfone, continua falando, rezando, pedindo chuva a Deus. Não foi a toa que nesta terça-feira choveu aqui em Campinas. Sua prece foi atendida.

Ao explicar a letra de “Ela disse assim (ou A teus pés), Lirinha conta a história por trás da letra. Uma menina que se joga de um prédio. Além da explicação a performance de Lirinha nessa música dá o tom teatral único e inesquecível.

Enfim, acho melhor não falar de cada música, pois cada uma tem sua intensidade única. Eu sempre sugiro a todos que assistam a um show do Cordel. Para mim um show deles por ano, no mínimo, é obrigatório. Depois da apresentação você se sente leve, tranqüilo, com a alma lavada e reestruturado para seguir a vida.

Obs.: O Cordel também está no myspace! E daqui a poco eles seguem para Portugal única apresentação por lá! Isso sim é coisa pra levar pra fora!!!


Negra Li e sua qualidade de hip-hop internacional

21 Maio, 2007

Depois de Tom Zé foi a vez de Negra Li se apresentar. Achei muito ousado, mas muito interessante, o fato da organização da Virada colocar dois artistas bem diferentes em horários seguidos. Negra Li entrou no palco logo depois de Tom Zé, às 00h30, e me fez comprovar a qualidade musical que o Brasil conseguiu conquistar no cenário hip-hop.

O show da Negra Li contou com duas dançarinas e um cara para fazer as vozes masculinas, além, obviamente, de um DJ no meio do palco. A menina do bairro paulista Vila Brasilândia entrou no palco com uma presença muito forte, mas sem ostentar muito o lado material. Ao invés de diversos apetrechos e roupas caríssimas e de grifes da alta classe, Negra Li se apresentou com um conjunto de roupa de esporte azul claro da Adidas. É claro que a Adidas não deixa de ser uma grife, mas não me pareceu uma ostentação ao dinheiro a roupa que ela usava.

A cantora se mostrou muito versátil, mesclando pontos em que cantava com partes em que rimava, tudo com uma qualidade e respeitabilidade tremenda. No repertório apresentou músicas de várias fases, desde de quando cantava com Helião (logo depois de sair do grupo RZO), passando por músicas do seu “grupo cinematográfico” Antônia. Obviamente não ficaram de fora as músicas de seu CD solo, “Negra Livre”. Li também cantou covers, como no caso da canção, que já é uma releitura, “Killing me softly”, dos Fugees.

As batidas das músicas, assim como toda a estrutura e essência das canções não deixam nada a desejar para toda a produção de hip-hop dos americanos. Além disso, e o mais importante, é que as letras são cantadas em português, deixando o público mais a par da mensagem que é dada, seja ela de caráter político ou sobre amor, por exemplo.

Obs.: Negra Li tem uma página no myspace. Lá da para ouvir quatro músicas inteiras. Bom para saber do que se trata!


Tom Zé e suas esquisitices na Virada

21 Maio, 2007

 E a Virada Cultural rumou para o interior. Neste fim de semana ocorreu o evento em diversas cidades do interior de São Paulo. Para Campinas, os destaques foram as apresentações de Tom Zé, Negra Li e Cordel do Fogo Encantado, que fechou o evento.

Na cidade de Campinas, em diversos pontos ocorriam espetáculos. Depois de uma “análise” dos eventos, resolvi ir apenas nos shows ocorridos na Estação Cultura. Cheguei no local por volta das 20hrs do sábado. O primeiro show que vi foi de Tom Zé, às 22h00.

O show de Tom Zé foi fantástico. Ele se mostrou que, mesmo aos 70 anos, consegue surpreender e chamar a atenção de diversos jovens. Estavam no eventos desde pessoas que já conheciam o trabalho do tropicalista, até pessoas que foram lá para ir na feira Mundo Mix (uma feira de roupas e acessórios). O único do problema o som, já que não conseguia entender direito as falas de Tom entre as músicas. O show começou com Tom vestido com uma vitrola no peito e cheio de conduites amarelos.

Dois momentos do show foram o suficiente para deixa-lo inesquecível. O primeiro foi na música “Companheiro Bush”, do CD Imprensa Cantada. Uma crítica bem-humorada sobre a guerra do Iraque promovida pelos EUA. “Se você já sabe quem vendeu aquela bomba pro Iraque/Desembuche/Eu desconfio que foi o Bush/ Foi o Bush”.

Outro momento alto do show foi na música “Defeito 3: Politicar” do fantástico CD “Com defeito de fabricação”. Tom Zè vestiu, sem camisa, um terno e, no decorrer da música, ia rasgando e dilacerando a vestimenta. “Vá tomar no verbo/Seu filho da letra/(…)Vá tomar na virgem/Seu filho da cruz”.

Um momento que talvez não seja importantíssimo para o show, mas que para mim teve um peso muito grande foi de uma sutileza tremenda, mas que vai ficar de lembrança. Não sei se por conta da microfonia ou pelo improviso performático de Tom Zè, o cantor simplesmente pegou uma das caixas de retorno na frente do palco e a mudou de posição. Para mim isso teve um peso simbólico muito grande: um artista como Tom Zé, com o peso cultural que ele possui e aos 70 anos, pegar uma caixa gigantesca e arrasta-la alguns centímetros no palco, no meio do espetáculo.

O show serviu para fomentar em mim e em boa parte dos meus amigos a curiosidade para conhecer tudo sobre o Tom Zé e sua importância na música. Só ouvi um disco inteiro dele, o “Com defeito de fabricação”, mas com certeza, a partir de agora, vou atrás para saber muito mais sobre esse maluco da cultura brasileira.

Obs.: Não posso me esquecer de lembrar de uma fato que conheço sobre Tom Zé. Na capa do álbum “Todos os olhos”, de 1973, pode se ver um olho com uma bola de gude. Porém, o que nem todo mundo sabe é que o olho em questão não é um olho no sentido visual da coisa. Tom Zé contratou uma, digamos, profissional da cama, para tirar uma foto do ânus da garota com uma bolinha de gude incrustada em seu esfíncter anal. Simplesmente, durante o auge da ditadura, Tom Zé colocou nas lojas um cu com uma bola de gude. Fantástico!


André Christovam Trio e Theo Werneck

21 Maio, 2007

Como aquecimento da Virada Cultural do Interior, o Sesc Campinas promoveu em parceria com o Sesc São Paulo a “Coletiva de Blues”. O evento aconteceu entre os dias 16 e 20 de maio e reuniu diversos músicos que representam o blues brasileiro, que tem uma grande visibilidade na cena internacional.

Fui assistir no dia 18, véspera do fim de semana da Virada, a apresentação de André Christovam Trio, que convidou o músico Theo Werneck (Não, ele não foi apenas o DJ do programa “H”, com Luciano Huck, do canal Bandeirantes).

O show começou numa exatidão britânica. Às 20hrs subia ao palco o trio liderado pelo guitarrista André Christovam. Começaram o show num clima muito intimista, apenas preparando a platéia e a si mesmos para o restante da apresentação. Tocaram de B.B. King a Peter Green, do Flatwood Mac. Além dos covers, o trio tocou músicas da carreira do próprio André, que se mostrou completamente entretido e feliz em tocar no dia, já que mudou a ordem das músicas, inclui canções que não estavam no repertório e conversava com a platéia em um ótimo bom humor. André se mostrou não só um respeitadíssimo guitarrista, com um estilo que mistura o blues e o jazz, mas também ser um ótimo cantor de blues, com aqueles saltos vocais dignos de B.B. King.

Em uma determinada hora, adiantou o quê iria acontecer e se precaveu. “Vou tocar duas músicas aqui antes que o Theo entre, por que quando ele entrar, vamos entrar num clima que eu não vou querer mais sair!”. Terminada as duas canções, Andre apunhalou um slide para chamar o convidado.

Eis que entra um rapaz humilde, com chapéu “cata-ovo”, camisa florida, All Star nos pés e uma sincera felicidade de estar subindo aos palcos. Theo entrou no meio da introdução da música, sentou no meio do palco, pegou seu lap steel, tirou do stand-by o Bassmann e mandou ótimos solos e arranjos com o trio. Cantou de modo a arrepiar a todos. Chegou “no sapatinho” (na humildade) e agarrou o público de um jeito completamente fantástico.

Ali ficou evidente o poder de persuasão e entretenimento que faz de Theo um coringa. Além de praticamente co-apresentar o programa liderado por Luciano Huck, Theo também trabalhou como ator, programador musical, músico de diversas bandas (como a Caboclada, que também conta com seu irmão, Márcio Werneck) e, para minha surpresa, como um árduo pesquisador de blues, principalmente das suas raízes.

Logo depois das primeiras músicas que tocou, Theo discursou sob a trilha sonora do trio que o convidou. Agradeceu muito a todos que estavam naquela noite por prestigiar o blues, cuja importância vai além da cultura norte-americana para virar uma identidade absoluta de um estilo de vida e expressão de uma classe que precisava de uma válvula de escape, semelhante ao samba no Brasil. Ambos foram inventados por escravos ou por parentes de escravos que ainda sofriam com o preconceito e a falta de oportunidade. Além do discurso, Theo também brincou com a platéia incitando-a a cantar e repetir suas vocalizações.

Dois destaques do show foram as versões que a banda fez com duas músicas. A primeira a ser tocada foi China Pig, gravada pelo duo White Stripes, muito elogiado pelo Theo como a “nova safra do blues, que os mais velhos devem prestar atenção também”. A música foi uma surpreendente roupagem blues para a música de Luiz Melodia, Negro Gato. Um bluez jazzy rápido e com uma originalidade e adaptação muito boa.

O evento foi muito bom e conseguiu juntar pessoas dos mais variados estilos: pais levando os filhos mais novos; avós trazendo os netos; namorados, amigos, músicos e mais um monte de pessoas que foram lá para prestigiar um blues autêntico, num dos poucos locais que dão espaço para essas vertentes culturais, como o Sesc.

Obs.: Theo não se agüentou e fez propaganda de sua banda, Theo Werneck Blues Trio, que toca essencialmente blues dos anos 20, 30 e 40 do século passado. Uma volta a uma das origens da música ocidental. Vale a pena conferir e divulgar!


Virada Cultural – Pluralismo simultâneo = singularidade ordinária?

7 Maio, 2007

 

 

Nesse fim de semana aconteceu na cidade de São Paulo a terceira edição da Virada Cultural. 24 horas de cultura, das 18h do sábado até às 18h do domingo (5 e 6 de maio). Diversos eventos ocorreram na cidade toda, mas o forte foi os shows nos palcos montados no centro velho da cidade.

Os shows aconteciam simultaneamente e foram divididos em cerca de 14 palcos para várias vertentes musicais. Escolher qual palco assistir foi o mais difícil. Vários eventos eu gostaria de ter assistido, mas preferi me instalar apenas no palco Boulevard São João, no Anhangabaú e assistir ao máximo de shows possíveis.

Resolvi chegar em São Paulo à meia-noite e meia para conferir os seguintes shows:

00h00 – Clube do Balanço convida Erasmo Carlos

02h00 – Ed Motta

04h00 – Gerson King Combo

06h00 – Skowa e a Máfia

08h00 – Karnak

10h00 – Pato Fu

12h00 – Premeditando o Breque

14h00 – Língua de Trapo

Cheguei no meio do show do Clube do Balanço, um grupo de samba-rock que resolveu convidar Erasmo Carlos para cantar alguns hits da Jovem Guarda, além de outras músicas. O carisma de Erasmo Carlos é algo muito sincero, não parecendo algo forjado, mas sim um total prazer de estar lá. No meio do show, Erasmo discursou sobre o agito existente no centro velho neste fim de semana e como o público que esteve no local destoa das pessoas que vão lá no dia-a-dia. Foi interessante o argumento que ele apresentou: muitos têm medo de entrar no centro por ser um local deserto e perigoso, porém, essas mesmas pessoas vieram para o centro contemplar a cultura. Isso deveria ser feito com mais freqüência. Tanto as visitas, quanto os eventos.

Ed Motta foi sensacional. Entrou após se apresentado por nada mais e nada menos que Bento XVI! Um sósia do poderoso chefão da Igreja introduziu multi-instrumentista ao público. Com uma boina vintage, óculos escuro e um ar completamente “Quincy-joniano” Ed Motta entrou achando graça da forma em que foi apresentado. Num ambiente soul-jazz o show começou com as clássicas vocalizações (ou scat-vocals) de Ed. Obviamente os hits radiofônicos não ficaram de fora, mas houve também um espaço para os trabalhos mais ousados, como a música Lindúria do álbum Dwitza, em que não há letra na maioria das músicas, havendo essas vocalizações como mais um instrumento.

Todos shows estavam respeitando o horário previsto e a apresentação de Gerson King Combo não foi diferente. Com seus bordões inesquecíveis e viciosos, Gerson animou todos com muito funk e muito groove. Seus “hello, brother” contagiou-me de uma forma que não conseguia deixar de terminar uma frase sem o tal vocativo.

Até então a Virada Cultural estava sendo um evento muito gostoso e prazeroso de estar, mas não seria mais assim. Durante a apresentação do grupo de rap Racionais Mc´s, uma confusão começou e se expandiu até perto de onde estávamos. Vimos muita correria em nossa direção e algumas bombas explodindo a cerca de 400 metros de nós. Nesse instante, por volta das 6 da manhã, fomos avisados que os eventos estariam temporariamente cancelados para evitar maior confusão.

Ficamos esperando até às 8hs, mas como não ouve nenhuma mudança de planos, resolvermos ir embora.

Infelizmente perdi os dois shows que mais queria assistir: Karnak e Pato Fu. Fiquei sabendo que o show dos mineiros do Pato Fu aconteceu, mas a apresentação do Karnak ficou para a história.

Enfim, foi a primeira vez que fui a uma Virada Cultural. Não sei como foi a organização nas outras edições, mas este ano, fora esse acontecimento infeliz, não achei que aconteceu nada de ruim.

Minha única crítica ao evento, que dá título a este meu primeiro post no meu primeiro blog foi a divisão de horários. Acho que fazer esses diversos palcos para as várias vertentes musicais foi algo muito interessante, porém, achei que um possível propósito do evento não foi atendido. Eu gostaria de ver muitas bandas que tocaram em outros palcos, mas não pude porque no mesmo horário estava ocorrendo outras atrações interessantes onde eu estava.

Acho que este evento poderia ter como uma das finalidades o pluralismo cultural e, para isso, fomentar a população a ver o máximo de vertentes diferentes de cultura. Porém, com os eventos acontecendo simultaneamente, dificulta a troca de informação, deixando a desejar o potencial que a Virada Cultural poderia ter.

Mas no final voltei para Campinas muito feliz de ter varado a madrugada de sábado para domingo ouvindo muita coisa boa e sabendo de como tem um público que ainda gosta de coisa boa!