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Já faz tempo que eu penso nessa minha tese. E sempre que eu ouço este álbum me deparo com a mesma opinião. Em 2003, o duo Outkast lançou um álbum duplo intitulado “Speakerboxxx/The Love Below”. O grupo ganhou o Grammy de “Álbum do Ano” em 2004, além de uma aceitação muito boa da crítica e do mercado fonográfico, vendendo cerca de 5,5 milhões de cópias.
Os dois CDs foram gravados de forma independente. Cada um ficou responsável e livre para gravar o que quisesse. Big Boi investiu no hip-hop tradicional, chamando diversos artistas dessa vertente e dissipando suas rimas do melhor estilo rapper.
Andre 3000, por sua vez, preferiu ousar mais e ao invés de fazer apenas rimas, partiu para um som mais melódico, cantando standards de jazz e viajando em outros estilos.
E foi justamente isso que mais me chamou atenção. No começo você se surpreende com cada faixa e não consegue entender direito o que Andre está querendo com isso. Com o tempo e depois de pensar muito no que ele estava armando, consegui chegar a uma teoria. Não sei se é válida, mas vale a pena pensar a respeito.
O segundo CD, de responsabilidade de Mr. 3000, começa com a música que dá título ao CD, “The Love Below (Intro)”, um jazz tradicionalíssimo, soando como Duke Ellington depois da morte de sua mãe, Daisy. Piano e uma orquestra dão um clima jazzy à música. Andre questiona de onde as flores crescem. “Alguns dizem Nova Iorque, outros Atlanta e há quem diga que foi em Paris, França”. Quais serão a raízes das músicas que virão? Uma faixa de abertura para qualquer fanático de hip-hop ficar completamente chocado com tamanho conservadorismo estético e temático.
Seguimos para a próxima trilha. “Love Hater” começa com uma guitarra distorcida fazendo ruídos e uma linha de piano e batera quase sem nexo. É o caos! Eis que surge um jazz tão tradicional quanto o anterior, mas com um ritmo mais acelerado, menos orquestral, como um Swing. Impossível deixar de estalar os dedos. E Andre pede: “todo mundo precisa de alguém para amar, antes que seja tarde!” Solo sincopado com metais, guitarra acústica, seguido por um cool jazz e um susurro (“Everybody needs somebody to love”). Aqui, nasce a idéia. Mistura-se a guitarra distorcida dos anos 70 com um estilo de cerca de 30 anos a mais. Uma pequena amostra da mistura que pode vir.

“God (Interlude)” vem para quebrar o maior paradigma da história. Andre pede para que Deus venha até ele e, quando o Todo Poderoso se aproxima, 3000 percebe que Deus na verdade é… uma mulher! Ele conta seus pecados e pede um favor. Ele precisa de uma mulher para amar e ser amado. Quer alguém que não precisa ter uma bunda grande, apenas proporcional ao seu corpo. Portanto o rapper dá seu recado e é direto: Não só afirma que Deus é uma mulher, como pede uma alma gêmea gostosa para a “inventora” do mundo.
“Happy Valentine´s Day” vem para confundir e não para explicar. Uma batida e um riff de guitarra funkíssimo dão o tom à música. Você espera Andre cantar. Ele chega rimando, sussurrando, como o cantor de soul mais sexy do mundo. Quem canta dessa vez é um coral feminino, no refrão. Uma batida funk com uma influência tradicional de hip-hop seguido de um solo de piano jazzy. Mistura-se rap, jazz e funk na mesma música. O piano no refrão é demais!
Próxima. Introdução com um órgão e um solo de saxofone. Mais um jazz? Não! Uma batida quebradíssima, eletrônica, quase um drum’ n’ bass. Agora o protagonista canta em falsete e pede para que a mulher abra as pernas. Depois, Andre não se contenta em apenas cantar e rimar de forma rápida, direta, como um solo ansioso dos tempos de Charlie Parker. Faz isso para lembrar que o que você está ouvindo não é um CD de jazz. Você não se enganou, comprou um CD de hip-hop e é isso que terá. Só não pense que é apenas mais um álbum desse estilo. A música segue depois com um solo de piano, com sonoplastia zerozerosetiana: Carro correndo, acelerando, derrapando, abrindo a porta. Saíram do carro! Muda o instrumento. Agora é a vez do trompete. Pessoas correndo, entrando em casa, jogando a chave, tirando a roupa… e o falsete volta. “Can’t resist your sexy ass/Just spread, spread for me”. Gemidos, a música abaixa e o galo canta. Foi-se a madrugada.
A manhã seguinte: A mulher acorda sem as calças e a consciência pesa. Não. Ela não se importa que ele ache que ela seja promíscua. E ela quer mais, pensa em esperar ele acordar. Ele pensa: Eu não acho que ela seja vagabunda. Ele até gosta que as mulheres mostrem o que elas querem logo de cara! O que ele vai fazer? Ele não sabe o que fazer! Está nervoso! Está… apaixonado!
Não se esqueça que o nome do CD é “The Love Below”. “Prototype” começa com uma guitarra romântica, uma batida sensualíssima e Andre interpretando um Prince apaixonado. Ele quer que ela seja seu verdadeiro amor. Vale a pena prestar muita atenção na linha de baixo. Muito boa!
Seguimos em frente. Risadas, sintetizadores. Silêncio! Hip-hop sintetizado. Participação de Rosario Dawson. Ela vive no colo dele. Noivos. E ele não precisa se preocupar com os outros, diz ela. No final um solo estranho de sax faz você não entender como ele foi parar ali. Eis que chega a próxima música.
“Hey Ya!” Em uma palavra? Radiofônica! Essa todo mundo conhece. Batida pegajosa, palmas, refrão “Hey ya” e uma letra bizarra compõem a música. Ele não quer conhecer os pais, quer faze-la gozar. Uma das piores frases de todo o mundo da música: “Shake like a Polaroid picture!” (“Mexa-se como uma foto de Polaroid”).
Próxima. Piano fodasso! Sem comentários! Uma batida R’n’B dá o tom à música. E a letra irônica diz que Caroline pensa que sua merda não fede, mas rosas na verdade cheiram a bosta! E a garota ainda é a razão por existir a palavra puta (que na versão do single dessa música foi substituída pela palavra bruxa – bitch/witch). Vale a pena ressaltar que nessa música o parceiro de Andre, Big Boi, faz sua única participação neste CD.
Mais uma vinheta. Uma conversa entre Andre e o convidado Farnsworth Bentley discutindo como eles estão. Bem, ótimo, espetacular? E uma mulher chega.

“Behold A Lady” é mais um hip-hop do CD. Andre já mostrou até aqui os elementos que usará para fazer sua sopa mágica que o presenteou com um Grammy. Ao longo do CD, ele explica, passo-a-passo, qual é a sua fórmula de fazer música e, principalmente, quais são suas influências. Jazz, Funk, Soul, R’n'B, Rap… Tudo junto para criar um hip-hop original e fabuloso num mundo de imitações e modos pré-fabricados de se fazer música.
“Pink & Blue” segue a mesma linha da faixa anterior. Com uma introdução de scratches, um hip-hop estranho e original segue com Andre cantando ao invés de rimando. “Love In War” mantém a postura, mas explicita o mote do álbum: O clichê chegou ao fim. E vamos fazer amor ao invés de guerrear. Soa como um clichê, porém, com os argumentos apresentados por 3000 no decorrer do álbum, o pedido se transforma em uma ordem!
“She´s alive” veio para representar, mais uma vez, o que Andre quer. Piano e uma bateria tocada com vassourinha dão o ar jazzy, mas o delay na caixa mostra a modernidade da canção.
Kelis ajuda Andre na faixa “Dracula´s Wedding” a afirmar que ele encontrou sua alma gêmea e não está acreditando que isso foi possível. Ele não só encontrou a parceira definitiva como a criou num ambiente único. O hip-hop de Outkast, “a la” Andre 3000!
Começa a próxima música. Batida alucinante de drum´n´bass. Virá mais um hip-hop clássico! NÃO! A canção segue com uma introdução de piano e baixo avisando que a história é diferente e você não sairá ileso dessa viagem. “My Favorite Things” numa batida eletrônica leva a ousadia de Andre ao ápice. A música-tema do clássico cinematográfico “A noviça rebelde” com uma releitura moderníssima, mas sem dispensar os solos de clarinete tão comuns no jazz.
E agora para confundir tudo! Uma canção folk romântica com Norah Jones. “Take Off Your Cool” pede para se despir do visual e personalidade descolada para que se conheça a sua real intenção e alma.
Estamos quase no fim. “Vibrate” tem uma batida de bateria invertida, com um piano criando uma atmosfera para um solo de trompete que poderia muito bem ser creditado à Miles Davis. Intenso, denso, introspectivo.
Última música. Um dia com Benjamin Andre, que se despe de sua personalidade descolada e assume o seu nome verdadeiro. Conta a história de quando conheceu uma garota, rimando num hip-hop pesado e perigoso, mantendo sua personalidade descolada, ironicamente. A música não está completa. Pois sua vida não chegou ao fim. Nem seu talento.
O que se percebe no decorrer do disco é como ele vai incluindo, aos poucos, elementos de vários estilos para mostrar qual é a melhor forma de fazer hip-hop. Uma lição de como complexo e rico o estilo pode ser, deixando de lado a idéia de ser apenas um loop para dar base a diversas rimas. Do mesmo jeito que a temática lírica do CD é sobre amor e suas diversas facetas, Andre busca explicar as inúmeras influências que o hip-hop pode receber e como trabalhar com esses elementos “emprestados”. 3000 transforma “The Love Below” em uma arte metalingüística, já que exemplifica através da arte as diversas formas de faze-la.
Poderia escrever muito mais sobre cada faixa e as particularidades de timbres e abordagens estética de cada uma, mas resolvi (tentar) resumir ao máximo meus pensamentos! Espero que tenham entendido… concordar já é outra história.