Mais que olhos azuis…

26 Novembro, 2009

Sempre reparei no olhar das pessoas. E não digo pela beleza do globo ocular, pelo formato ou pelas nuances de cor que se pode ver, mas pela expressividade do olhar. Tanto faz se o olho é verde, azul, castanho, verde-castanho, azul-cinza… O que importa é a mensagem transmitida pelos olhos.

Contudo, devo admitir que alguns olhos conseguem ser belos (nas nuances e formas) e expressivos ao mesmo tempo. Mas não é esse o tópico deste post. Tive contato recente com duas cantores de olhos azuis e musicas expressivas. Cada uma de um jeito.

Conheci a norueguesa Ida Maria através de um programa britânico que passa no Multishow chamado Sound. As primeiras frases que eu ouvi dela já me convenceram a continuar ouvindo até o final. Mesmo que isso significasse eu chegar atrasado ao trabalho.

Whiskey please, I need some whiskey please
So bring me consciousness and kill my innocence

Anotei rapidamente o nome dela e fui atrás do CD. Lançado em 2008, Fortress round my heart soa como um album de rock-pop, com levadas na guitarra bem felizes. Mas as letras não traduzem sempre esse clima de alegria e as vezes soam irônicas. E talvez seja essa combinação que o faça tão bom.

A outra garota de olhar cor-de-céu eu já conhecia de outros carnavais meios. Zooey Deschanel atuou em filmes grandes, como Quase Famosos, Guia do Mochileiro das Galáxias…

Também em 2008 (sim, sei que estamos em 2009, mas as vezes demoramos mais, okay?), Zooey se juntou com M. Ward e formaram a dupla folk She & Him e lançaram o álbum Volume One.

Com um nome que nos remete a uma compilação, Volume One aparenta ser uma homenagem a cultura pop em inglês (leia-se: EUA e Inglaterra). O album é regado de boas referências, da Motown dos anos 60, passando pelo folk, country e levadas que remetem aos Beatles e toda a geração hippie. Todas as músicas são compostas pela Zooey, exceto duas covers: “You really got a hold on me” (Smokey Robinson) e “I should have known better” (Lennon, McCartney).

É um disco muito mais intimista e sutil, mas não menos bom.


1001 DISCOS (para download)

23 Outubro, 2009

Achei um link para download (em rapidshare ou easyshare) de TODOS os álbuns citados no livro “1001 DISCOS PARA OUVIR ANTES DE MORRER“, de Robert Dimery.

Trata-se de um livro bem bacana, dividindo os discos mais importantes de cada década. É um ótimo guia para referência.

http://nobrasil.org/1001-discos-para-ouvir-antes-de-morrer/


Novidades do bom velhinho!

20 Outubro, 2009

Quando todos o reverenciavam pelo seu estilo folk, ele passou a tocar guitarra. Quando todos queriam vê-lo se apresentando, ele sumiu para viver numa fazenda. Quando todos queriam um album novo, ele aparece com um album tradicionalmente country.

Depois, torna-se evangélico; Volta ao judaísmo; Atua em filmes nos anos 80. Na década seguinte, após lançar um album considerado um dos melhores da sua carreira, ele faz um CD completamente diferente…

Talvez seja assim que podemos interpretar a receptividade de Bob Dylan à receptividade do público.

A última do músico é o lançamento de um album “Christmas in the heart”. Um CD – respirem fundo – NATALINO! Sim, podemos ouvir Bob Dylan soltando a voz – seja ela qual for – em canções tradicionais do Natal americano.

O clima solidário de fim-de-ano também mexe com Dylan. Toda a renda de direitos autorais do álbum será doada para instituições que ajudam as pessoas de baixa-renda. Nos EUA, a Feeding America receberá a quantia. Para os fãs ingleses, Crisis será a presenteada. No restante do mundo, o repasse será feito para WFP.

Como no Brasil o CD não foi lançado, deixo o link do torrent para vocês ouvirem.
http://thepiratebay.org/torrent/5128158/Bob_Dylan_-_Christmas_in_the_Heart__mp3__192

Caso queiram comprar, a Livraria Cultura comercializa a versão importada.

***

UPGRADE(1): Vale a pena ver o clipe! Dylan aparece está muito engraçado!

UPGRADE(2): A Livraria Cultura conseguiu a venda exclusiva da versão nacional! Muito mais barata!


Nação Zumbi com fome de tudo… até do passado!

12 Maio, 2008

O som é revigorante. A iluminação é psicodélica. A performance é transcendental. O clima é… nostálgico? A Nação Zumbi tinha tudo para se manter como uma das bandas mais originais e revitalizantes do cenário brasileiro se não fosse pela insistência deles mesmos em continuar vivendo sob a sombra de Chico Science.

Desde a morte de Chico, em fevereiro de 1997, a banda já lançou quatro álbuns de estúdio, Radio S.amb.A (2000), Nação Zumbi (2002), Futura (2005) e Fome de tudo (2007). Na companhia do líder, gravaram apenas dois álbuns de estúdio, Da lama ao caos (1994) e Afrociberdelia (1996). Escrevo isso para mostrar que a quantidade de músicas compostas pela banda após o falecimento de Chico é o dobro do que a produção quando ele estava em vida. Mesmo assim, o show de abril de 2008, na turnê do disco “Fome de Tudo”, há um número consideravelmente superior de músicas da fase Chico Science.

Fui ao show da Nação Zumbi para ouvir as músicas da Nação Zumbi, obviamente que gostaria de ouvir a música da fase que os lançou ao mundo, mas gosto da sonoridade atual e queria ouvir as músicas novas, frescas e revigorantes que eles fizeram nos últimos 8 anos. Porém, o repertório do show é focado grande parte nas músicas dos álbuns de 94 e 96, causando um clima nostálgico e quase melancólico na platéia. Todos se divertem, todos pulam nas músicas antigas, mas há sempre aquele clima de “bem que eu queria que Chico estivesse aqui…”. Eu também queria! Mas vamos aceitar o fato dele ter morrido e vamos seguir em frente. A produção fonográfica da Nação pós-chico é tão competente e brilhante quanto as músicas compostas nos anos 90. A importância dele é indiscutível, mas a Nação tem que aprender a andar com suas próprias pernas e arriscar mais, montando um repertório que reúna as músicas do começo da carreira, mas que tenha como alicerce as canções compostas na fase “só” Nação Zumbi.

O mangue-bit, liderado por Chico Science e Fred 04 (do Mundo Livre S/A), é sem dúvida o último grande movimento artístico do país. Não quero esquecer, volto a frisar, da importância fundamental de seu porta-voz, mas não quero que suas crias vivam sempre como apenas “filhos do Chico”. São sim, mas não devem agir dessa forma.


Jota Quest – Ao vivo MTV

25 Março, 2008

     Comprei recentemente o CD “Ao Vivo MTV”, do grupo mineiro Jota Quest. Adquiri o artefato pelo simples motivo de ter em meu acervo uma compilação bacana das músicas do grupo.

    Contudo, conforme eu fui ouvindo e re-ouvindo o CD, boa parte das músicas faziam parte do meu repertório vivo, já que lembrava integralmente ou em partes da maioria das músicas. Então eu parei para escutar.

    Jota Quest é uma ótima banda. O que faz uma banda ser pop? Ser comercial ou ser comercializável? Sendo a segunda opção a mais correta, vejo que Jota Quest como pop. E, quero salientar, ser comercializável não é crime. Não sou daqueles que só ouve bandas desconhecidas, pobres, com produções toscas e shows insanos. Escuto elas também, mas não apenas.

    Jota Quest é um pop/rock-funk/soul com uma ótima qualidade. São músicos bons, que sabem escolher minimamente o quê fazer em cada parte da canção, sabendo respeitar os outros integrantes, além de tocar para a música, e não utilizarem dela para mostrarem o quão são capazes. Pode parecer um detalhe pequeno e quase ínfimo, mas muita diferença, principalmente no estilo que eles se encaixam.

    Sobre o CD, é impossível ficar sem conhecer grande parte das músicas. Para o bem e para o mal, admito. “Fácil” não é uma canção boa, por exemplo. Porém, a maioria das músicas é boa, não ÓTIMA, mas boa, e é isso que eu espero de uma banda “comercializável”. Nem todas conseguem se manter no degrau radiofônico enquanto evoluem estética e liricamente. Conto nos dedos exemplos assim (a começar pelos Beatles).

Meu TOP 5 do CD:

5- Encontrar alguém

4- Dores do mundo

(Desculpe pela qualidade deste vídeo, mas foi o melhor que eu achei)

3- Do seu lado

2- Mais uma vez

1- Na moral


Explanações (ou QUIZ)

12 Novembro, 2007

Perceberam minha ausência textual no blog? Eu sim! Para remediar, enfiei um tanto de vídeo do VocêTóba, hipocritamente, é claro!

 

Meu hiato bloguístico se deve a algumas ações profissionais que faço atualmente. Entre tantas outras, estou fazendo a assessoria de imprensa para a banda QUIZ. O grupo é formado por músicos formados em música na Unicamp. Coisa fina!

 

Comecei a trabalhar com eles não só pelo lance profissional da coisa, de entrar no mercado de trabalho e galgar meu próprio espaço nessa lama. A razão maior foi de estar em contato com pessoas que respiram música. Obviamente, seus olfatos são muito mais apurados que os meus e talvez isso seja mais um motivo para eu me interessar.

 

A QUIZ (no feminino mesmo – coisa de artista maluco?) faz um groove moderno recheado de elementos dos mais variados estilos. Ouve-se drum’n’bass em músicas de bossa nova. Disco em funk. E Moderna MPB em tudo. Tudo isso auxiliado por uma percepção sonora e concepção musical original e de muita qualidade! Precisa de rótulos ou influência? Ed Motta, Jamiroquai, Moska, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Ivan Lins… Junta tudo e pronto!

 

Eles lançaram recentemente o primeiro CD, auto-entitulado, e a distribuição está sendo (é impossível não gerundiar agora!) feita pela Tratore, especializada em artistas independentes (mas não amadores!). (Existe limites para parênteses num único parágrafo? O que a ABNT deve falar a respeito?)

 

O CD é animal. Músicas com arranjos muito bom e uma qualidade técnica de todos os músicos que é invejável. A cozinha é uma coisa francesa, meticulosamente coordenada pela batida certeira e criativa do batera Gigante em conjunto com o baixo do Gagá (ou Gabrilas… sei lá!), que sabe a hora certa de se manter na batida e a hora de fazer suas pontuações.

 

A “cama harmônica” é feita pelo guitarrista Emiliano e Pedro nos teclados que, juntos, conseguem dividir bem suas aparições, equilibrando bem as harmonias e melodias características da QUIZ!

 

Guga faz sua parte com uma qualidade absurda. Como já disse a ele, “No Seu Jogo” é um exemplo de como a banda consegue alterar de forma harmoniosa a dinâmica da música, perpassando por ritmos lentos e melódicos até um certo frenesi quase que catártico. E tudo isso é otimamente guiado (ou seguido) pelo vocal de Guga, que respeita cada clima da música, fazendo ora um vocal limpo e exato, ora jazzisticamente complexo, além de soltar a garganta de vez em quando.

 

Sei que parece demagogia este post. Mas saibam que fui ao show desses caras e escrevo aqui não como o assessor de imprensa deles, mas como um viciado em música de qualidade, que percebeu a tamanha originalidade e poder desses malucos!

 

Chega de puxa-saquismo, eu sei!

 

Ouçam e tirem suas conclusões, vai!

 

Adiós!


Ataxia – AWII

22 Agosto, 2007

Sim, eu sei. Tá, desculpa. Mas… mas mas…! É o seguinte: meu blog não está atualizado por algumas razões. Entre elas, comecei a escrever na revista Paradoxo. Isso é um atenuante, pô!

Meu primeiro texto foi sobre o novo álbum do Ataxia, um dos projetos paralelos do guitarrista do Red Hot Chili Peppers, John Frusciante, que também tem um Myspace.

 

Ataxia - AWII

Download

Aqui está o link da matéria.

Vou tentar colocar mais coisas no decorrer dos dias, nem que seja mais algum Top5 ou videozinhos interessantes!


Metallica – St. Anger

18 Junho, 2007

Metallica - St. Anger

Não sou um grande fã do Metallica. Tenho apenas três CDs deles, mas sempre gostei de muita coisa que eles fizeram. Acho que isso joga a meu favor para dar minha opinião sobre um dos melhores álbuns (que eu conheço) do Metallica: St. Anger. Sei que levarei muita bordoada na cabeça por esta afirmação, mas tendo noção das minhas grandes influências musicais, tenho que fazê-la!

Minha maior afinidade musical é com a escola “punkística”. Comecei a tocar guitarra por conta de bandas como, Raimundos (que foram influenciados por…), Ramones e Nirvana. Nunca amei fazer firulas ou solos quando tocava, mas queria passar exatamente o meu sentimento quando tocava um determinado acorde, seja ele complexo ou simples. Percebi, ao longo do tempo, que minhas preferências sempre foram músicas que eram cruas, sinceras, simples e catárticas. Obviamente não se encaixa apenas o punk como estilo que preencha essas características, vejo o funk/soul (funk americano! Por favor não confundir com o funk carioca, que também tem muita coisa legal, mas que não se encaixa nessa ocasião), rock’n’roll, grunge, entre outros diversos, que me alimentam desses pré-requisitos.

Voltemos ao assunto em questão! Sim, acho o “St. Anger” um dos melhores álbuns do Metallica e ponto! Já adianto que: sim, acho que a caixa da bateria tem som de lata de goiabada, mas nem por isso não é um disco foda!

O que mais me impressionou com esse álbum foi a quebra de paradigmas! Não há um solo de guitarra (a não ser uns riffs toscos e bizarros que se parecem com solo, como na faixa “Some kind of monster”, que é um “solo” de três notas!) e não há uma virada de bateria digna de um baterista de metal (Lars preferiu dessa vez fazer coisas simples, óbvias, mas manteve a energia de cada trecho, mesmo fazendo a mesma “virada” tosca, de uma forma punk). Além disso, as músicas duram cerca de 6 minutos, chegando a ter músicas com mais de 8 minutos! Sendo estruturadas só com riffs!! Para mim chega a ser quase um desperdício, já que na mesma música são utilizados uns cinco riffs, que poderiam muito bem ser dividida em, digamos, três canções!

E, acima de tudo, é um disco foda porque é foda e pronto! Umas músicas muito boas, com um peso absurdo, uma energia fenomenal e James Hetfield conseguindo balancear bem sua voz com as partes melódicas e “guturais”, também soando punks, já que às vezes algumas deslizadas (ou desafinações) são perceptíveis. Para mim isso conta a favor! Faz jus aos meus pré-requisitos: não se quer algo perfeito, bem lapidado, pensando, refletido, pesquisado… Quero algo catártico, sincero e absurdamente humano!

“Some kind of monster” tem uma coisa que me faz delirar: o barulho da esteira da caixa enquanto Hetfield faz a introdução. Isso é de uma pureza muito boa! Quem já esteve num ensaio de banda qualquer sabe como é esse “barulho”! Coloca-lo no álbum dá a sensação de ouvir uma gravação de um ensaio, sem cortes, produções ou arranjos complexos. Uma jam registrada!

Eu sei que muitos ficarão bravíssimos comigo! Tenho certeza que receberei alguma crítica do Léo sobre esse post, mas tive que faze-lo! Hehehe… 

Metallica

Não quero que concordem comigo e nem quero fazer uma apologia ao punk! Só quero mostrar que técnica, virtuosismo e egocentrismo nem sempre são fatores que influenciam positivamente! St. Anger mostrou que o metal tem como influência o punk, ou se preferir uma outra palavra, a simplicidade! Cinco riffs numa música podem dizer mais do que um solo, ou uma virada absurda de bateria pode ser substituída por algo mais simples! Isso não significa que a música perderá sua razão de ser e nem que se deve abolir os solos e as viradas, mas o que temos que ter noção é que nem sempre se precisa preencher os espaços vazios ou “pobres” nas músicas.


Elliott Smith – XO + New Moon

10 Junho, 2007

Estou colocando os links do rapidshare desses dois álbuns de Elliott Smith.

XOXO é o primeiro álbum de Elliott lançado por uma grande gravadora, a DreamWorks, em 1998. Para mim é um dos trabalhos mais completos do músico. Canções apenas com voz e violão, como a belíssima “Pitseleh” se misturam com músicas mais trabalhadas, como “Baby Britain”. As letras têm um tom meio baixo astral e depressivo, ganhando uma atmosfera ainda mais densa com a voz sussurrante e melódica de Elliott. O músico opta por trabalhar bastante com a harmonia das músicas, colocando acordes surpreendentes e diferentes no decorrer das canções.

Download – XO 

New Moon

New Moon foi lançado no começo de maio pela pequena gravadora Kill Rock Stars, que lançou este álbum duplo em comemoração pelos 10 anos do “Either/Or”, também lançados por eles. É um perfil de Elliott de 1994 a 1997, com compilações dessa época, incluindo canções inéditas e algumas versões de músicas já lançadas. Para quem não conhece Elliott, é um ótimo começo!

   Download New Moon CD1         Download New Moon CD2


Andre 3000 e sua fórmula para se fazer hip-hop de qualidade

14 Maio, 2007

Outkast - Speakerboxxx/The Love Below

Clique no álbum para fazer o download e ouvir enquanto lê este post

Já faz tempo que eu penso nessa minha tese. E sempre que eu ouço este álbum me deparo com a mesma opinião. Em 2003, o duo Outkast lançou um álbum duplo intitulado “Speakerboxxx/The Love Below”. O grupo ganhou o Grammy de “Álbum do Ano” em 2004, além de uma aceitação muito boa da crítica e do mercado fonográfico, vendendo cerca de 5,5 milhões de cópias.

Os dois CDs foram gravados de forma independente. Cada um ficou responsável e livre para gravar o que quisesse. Big Boi investiu no hip-hop tradicional, chamando diversos artistas dessa vertente e dissipando suas rimas do melhor estilo rapper.

Andre 3000, por sua vez, preferiu ousar mais e ao invés de fazer apenas rimas, partiu para um som mais melódico, cantando standards de jazz e viajando em outros estilos.

E foi justamente isso que mais me chamou atenção. No começo você se surpreende com cada faixa e não consegue entender direito o que Andre está querendo com isso. Com o tempo e depois de pensar muito no que ele estava armando, consegui chegar a uma teoria. Não sei se é válida, mas vale a pena pensar a respeito.

O segundo CD, de responsabilidade de Mr. 3000, começa com a música que dá título ao CD, “The Love Below (Intro)”, um jazz tradicionalíssimo, soando como Duke Ellington depois da morte de sua mãe, Daisy. Piano e uma orquestra dão um clima jazzy à música. Andre questiona de onde as flores crescem. “Alguns dizem Nova Iorque, outros Atlanta e há quem diga que foi em Paris, França”. Quais serão a raízes das músicas que virão? Uma faixa de abertura para qualquer fanático de hip-hop ficar completamente chocado com tamanho conservadorismo estético e temático.

Seguimos para a próxima trilha. “Love Hater” começa com uma guitarra distorcida fazendo ruídos e uma linha de piano e batera quase sem nexo. É o caos! Eis que surge um jazz tão tradicional quanto o anterior, mas com um ritmo mais acelerado, menos orquestral, como um Swing. Impossível deixar de estalar os dedos. E Andre pede: “todo mundo precisa de alguém para amar, antes que seja tarde!” Solo sincopado com metais, guitarra acústica, seguido por um cool jazz e um susurro (“Everybody needs somebody to love”). Aqui, nasce a idéia. Mistura-se a guitarra distorcida dos anos 70 com um estilo de cerca de 30 anos a mais. Uma pequena amostra da mistura que pode vir.

Andre 3000

“God (Interlude)” vem para quebrar o maior paradigma da história. Andre pede para que Deus venha até ele e, quando o Todo Poderoso se aproxima, 3000 percebe que Deus na verdade é… uma mulher! Ele conta seus pecados e pede um favor. Ele precisa de uma mulher para amar e ser amado. Quer alguém que não precisa ter uma bunda grande, apenas proporcional ao seu corpo. Portanto o rapper dá seu recado e é direto: Não só afirma que Deus é uma mulher, como pede uma alma gêmea gostosa para a “inventora” do mundo.

“Happy Valentine´s Day” vem para confundir e não para explicar. Uma batida e um riff de guitarra funkíssimo dão o tom à música. Você espera Andre cantar. Ele chega rimando, sussurrando, como o cantor de soul mais sexy do mundo. Quem canta dessa vez é um coral feminino, no refrão. Uma batida funk com uma influência tradicional de hip-hop seguido de um solo de piano jazzy. Mistura-se rap, jazz e funk na mesma música. O piano no refrão é demais!

Próxima. Introdução com um órgão e um solo de saxofone. Mais um jazz? Não! Uma batida quebradíssima, eletrônica, quase um drum’ n’ bass. Agora o protagonista canta em falsete e pede para que a mulher abra as pernas. Depois, Andre não se contenta em apenas cantar e rimar de forma rápida, direta, como um solo ansioso dos tempos de Charlie Parker. Faz isso para lembrar que o que você está ouvindo não é um CD de jazz. Você não se enganou, comprou um CD de hip-hop e é isso que terá. Só não pense que é apenas mais um álbum desse estilo. A música segue depois com um solo de piano, com sonoplastia zerozerosetiana: Carro correndo, acelerando, derrapando, abrindo a porta. Saíram do carro! Muda o instrumento. Agora é a vez do trompete. Pessoas correndo, entrando em casa, jogando a chave, tirando a roupa… e o falsete volta. “Can’t resist your sexy ass/Just spread, spread for me”. Gemidos, a música abaixa e o galo canta. Foi-se a madrugada.

A manhã seguinte: A mulher acorda sem as calças e a consciência pesa. Não. Ela não se importa que ele ache que ela seja promíscua. E ela quer mais, pensa em esperar ele acordar. Ele pensa: Eu não acho que ela seja vagabunda. Ele até gosta que as mulheres mostrem o que elas querem logo de cara! O que ele vai fazer? Ele não sabe o que fazer! Está nervoso! Está… apaixonado!

Não se esqueça que o nome do CD é “The Love Below”. “Prototype” começa com uma guitarra romântica, uma batida sensualíssima e Andre interpretando um Prince apaixonado. Ele quer que ela seja seu verdadeiro amor. Vale a pena prestar muita atenção na linha de baixo. Muito boa!

Seguimos em frente. Risadas, sintetizadores. Silêncio! Hip-hop sintetizado. Participação de Rosario Dawson. Ela vive no colo dele. Noivos. E ele não precisa se preocupar com os outros, diz ela. No final um solo estranho de sax faz você não entender como ele foi parar ali. Eis que chega a próxima música.

“Hey Ya!” Em uma palavra? Radiofônica! Essa todo mundo conhece. Batida pegajosa, palmas, refrão “Hey ya” e uma letra bizarra compõem a música. Ele não quer conhecer os pais, quer faze-la gozar. Uma das piores frases de todo o mundo da música: “Shake like a Polaroid picture!” (“Mexa-se como uma foto de Polaroid”).

Próxima. Piano fodasso! Sem comentários! Uma batida R’n’B dá o tom à música. E a letra irônica diz que Caroline pensa que sua merda não fede, mas rosas na verdade cheiram a bosta! E a garota ainda é a razão por existir a palavra puta (que na versão do single dessa música foi substituída pela palavra bruxabitch/witch). Vale a pena ressaltar que nessa música o parceiro de Andre, Big Boi, faz sua única participação neste CD.

Mais uma vinheta. Uma conversa entre Andre e o convidado Farnsworth Bentley discutindo como eles estão. Bem, ótimo, espetacular? E uma mulher chega.

Big Boi+Andre 3000 = Outkast

“Behold A Lady” é mais um hip-hop do CD. Andre já mostrou até aqui os elementos que usará para fazer sua sopa mágica que o presenteou com um Grammy. Ao longo do CD, ele explica, passo-a-passo, qual é a sua fórmula de fazer música e, principalmente, quais são suas influências. Jazz, Funk, Soul, R’n'B, Rap… Tudo junto para criar um hip-hop original e fabuloso num mundo de imitações e modos pré-fabricados de se fazer música.

“Pink & Blue” segue a mesma linha da faixa anterior. Com uma introdução de scratches, um hip-hop estranho e original segue com Andre cantando ao invés de rimando. “Love In War” mantém a postura, mas explicita o mote do álbum: O clichê chegou ao fim. E vamos fazer amor ao invés de guerrear. Soa como um clichê, porém, com os argumentos apresentados por 3000 no decorrer do álbum, o pedido se transforma em uma ordem!

“She´s alive” veio para representar, mais uma vez, o que Andre quer. Piano e uma bateria tocada com vassourinha dão o ar jazzy, mas o delay na caixa mostra a modernidade da canção.

Kelis ajuda Andre na faixa “Dracula´s Wedding” a afirmar que ele encontrou sua alma gêmea e não está acreditando que isso foi possível. Ele não só encontrou a parceira definitiva como a criou num ambiente único. O hip-hop de Outkast, “a la” Andre 3000!

Começa a próxima música. Batida alucinante de drum´n´bass. Virá mais um hip-hop clássico! NÃO! A canção segue com uma introdução de piano e baixo avisando que a história é diferente e você não sairá ileso dessa viagem. “My Favorite Things” numa batida eletrônica leva a ousadia de Andre ao ápice. A música-tema do clássico cinematográfico “A noviça rebelde” com uma releitura moderníssima, mas sem dispensar os solos de clarinete tão comuns no jazz.

E agora para confundir tudo! Uma canção folk romântica com Norah Jones. “Take Off Your Cool” pede para se despir do visual e personalidade descolada para que se conheça a sua real intenção e alma.

Estamos quase no fim. “Vibrate” tem uma batida de bateria invertida, com um piano criando uma atmosfera para um solo de trompete que poderia muito bem ser creditado à Miles Davis. Intenso, denso, introspectivo.

Última música. Um dia com Benjamin Andre, que se despe de sua personalidade descolada e assume o seu nome verdadeiro. Conta a história de quando conheceu uma garota, rimando num hip-hop pesado e perigoso, mantendo sua personalidade descolada, ironicamente. A música não está completa. Pois sua vida não chegou ao fim. Nem seu talento.

O que se percebe no decorrer do disco é como ele vai incluindo, aos poucos, elementos de vários estilos para mostrar qual é a melhor forma de fazer hip-hop. Uma lição de como complexo e rico o estilo pode ser, deixando de lado a idéia de ser apenas um loop para dar base a diversas rimas. Do mesmo jeito que a temática lírica do CD é sobre amor e suas diversas facetas, Andre busca explicar as inúmeras influências que o hip-hop pode receber e como trabalhar com esses elementos “emprestados”. 3000 transforma “The Love Below” em uma arte metalingüística, já que exemplifica através da arte as diversas formas de faze-la.

Poderia escrever muito mais sobre cada faixa e as particularidades de timbres e abordagens estética de cada uma, mas resolvi (tentar) resumir ao máximo meus pensamentos! Espero que tenham entendido… concordar já é outra história.