Lua (ou Sol)

Comprei há algum tempo um mp3 player. Como sou econômico humilde, resolvi pegar um bem simples, sem frescuras. Quando eu comecei a usa-lo, percebi que as frescuras que eu abri mão foram: volume razoável, bateria durável e painel alumiado. Ou seja, um aparelho abominável, com volume baixo, pouca bateria e uma dificuldade para escolher as músicas.

Enfim, não o uso mais. Na volta de São Paulo, quando fui ver a Virada Russa, passei numa loja na rodoviária para arrumar algo para ler. Achei um livro que me pareceu de distribuição independente, quase amador, com contos, “mini-contos” e poesias. Li de forma aleatória, entre uma olhada e outra pela janela.

Há uma certa altura da viagem (km 64), deparei-me com um “mini-conto” que eu achei bem interessante. Às vezes ele me parece um rascunho. De qualquer forma, compartilho com vocês.

Lua (ou Sol)
por Luis Tavares Santos

Mesmo com todas as mudanças climáticas ocorridas nos últimos tempos; mesmo os gases emitidos pelas fábricas, refinarias, carros, construções; mesmo com os fenômenos da natureza; as angulações da luz e seu prisma; mesmo com todas as explicações e teorias, ele nunca vira uma lua daquelas.

Não era uma lua qualquer. Não parecia uma lua qualquer. Talvez nem fosse lua, talvez fosse sol. Ele a vira numa madrugada, antes da chegada dos pássaros, longe da chegada do dia, da chegada do final, ou do começo. Já fizera sua escolha, sua decisão. Era uma questão de esperar o dia acabar. Eis que ele é presenteado com uma lua que ele nunca vira.

Era grande, imponente, como se autorizasse sua escolha. Símbolo de consentimento. Ele a vira a caminho da despedida, nas ruas que passaria pela última vez, na portaria que não escalou, nas curvas que mal fazia. Eles se encontravam entre uma olhada e outra, entre uma enxurrada e outra, enxugada e outra, exumada e outra.

Chegou em casa sem forças para sobreviver. Adormeceu como num último sono.

***

Acordou pouco tempo depois, mas como se fizesse anos que dormira. O cansaço dos pés não estavam sanados, mas a mente estava revitalizada. Olhou-se no espelho. Não se reconheceu. Estava tudo lá: a barba, a boca, os olhos, mas havia uma leveza no olhar, uma serenidade na expressão. Fazia tempo que não deixava de sentir um fardo. Suas cobranças consigo eram as mesmas do dia anterior, mas uma pendência resolvera. Com ajuda da lua. Uma lua que ele nunca vira.

Deixe uma resposta